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quinta-feira, 19 de junho de 2014

( Mergulho) Uma história de vida para lembrar toda a vida...

Boas,

Pensei imenso antes de decidir fazer este relato mas achei que uma história de vida, com um momento triste, o pior que tive num dia de pesca de sempre, mas com um momento lindo e que me marcou imenso merecia ser relatado...
Não sei bem como descrever o que para mim é indescritível, só vendo... Mas vou tentar o melhor que eu souber...

Este é um relato agridoce...

O calor que tem sido presença levou-nos a fazer uma pesca diferente, algo que não é muito comum fazermos. Uma caça aos peixes planos, a peixes, de fundo, em águas baixas...

Este tipo de pesca é uma espécie de caça ao tesouro, pois não procuramos peixes em movimento, mas sim olhos! Sim olhos, ou qualquer coisa, que pareça ter vida, lá em baixo, no meio da areia. Qualquer pista, qualquer movimento pode significar uma boa captura... Andar a procura de movimento é uma coisa, agora andar a procura da falta dele é muito mais difícil...

O dia estava bastante agradável e pese embora o muito limo que havia pelos fundos o que dificulta imenso a procura que estávamos a fazer, via-se bem, e dava para procurar qualquer coisa... Como o vento levantava a seguir ao almoço, e já chegámos a meio da manhã, tentámos dar com alguma captura o mais rápido possível, pois seria impensável vir de mãos a abanar... Bem, pelo menos nós quando entramos em campo é para ganhar, lol.

Escolhemos zonas baixas, cerca dos 3/4 metros de fundura e ai, buscámos a sorte... Rapidamente se encontrou o 1º exemplar do dia, bem pelo menos foi uma captura, pois não foi nenhum peixe plano, mas sim, uma bela santola... Logo de seguida outra bela santola, esta ainda maior...



 Andámos ali uns minutos as voltas, mas não demos com mais nada, e a solução foi procurar zonas um pouquito mais fundas, mesmo que  isso dificultasse um pouco a visibilidade e o conforto... Umas das coisas que nos preocupamos sempre é em garantir o máximo de segurança possível, mesmo que isso minimize a quantidade de capturas. Óbvio que mesmo assim, acontecem por vezes coisas... Lol.

Neste novo spot, as águas eram mais tapadas, mas tinham menos limo o que ajuda bastante a busca dos fundos... Estava eu a comer um belo Donuts, quando o Palma me chamou para me entregar um belíssimo linguado, bem grande, que ele tinha capturado... Comecei logo a pensar na grelha...


Com esta captura, julgávamos ter dado com um cói deles, mas não... A hora seguinte foi de seca, e nem um peixito se viu...

Dentro do barco procurámos respostas e resolvemos ir em busca de outras águas um pouco mais a Norte, a ver se conseguia-se apanhar mais um ou dois peixitos...

E é aqui que para mim começa o relato, pelo menos o que pretendo transmitir... Posso viver mais 100 anos, e dificilmente vejo algo igual, posso apanhar mais milhares de peixes, e dificilmente me acontece o mesmo.

Este é o momento que recordarei toda a minha vida...

Estava eu a tratar de molhar as santolas pois estas são animais muito sensíveis e expostos ao sol morrem facilmente, quando o Palma me chama de mãos a abanar... E vou ao encontro dele para dar por terminada a pesca naquele dia... Quando eu estou a chegar perto dele, e ele a nadar em minha direcção, eis que ele dá meia volta, e torna atrás uns metros... E de repente no meio da minha estranheza, e olhem que ao me lembrar, fecho os olhos e recordo o momento de uma forma muito mágica... Eu vi-o a disparar a arma, e de repente,ele sobe ao cimo e grita: " Loucura, loucura", "anda cá, anda cá"... e eu vejo um vulto enorme no fundo a movimentar-se e como a água estava meio tapada, não estava a entender nada... Ninguém imagina, eu estava perdido, a ver aquilo e nem sabia se era um peixe, ou um movimento de algum molho de limo ou algum saco sei lá... Numa fracção de segundo, por vezes perder o raciocínio e deixas de perceber onde andas...
De repente vejo o Palma a lutar para vir ao de cima, a tentar chegar ao barco e a ser como que arrastado... Ele mete a cabeça fora de água e grita: " AGARRA, AGARRA, RÁPIDO"... e eu preplexo, sem saber bem, e sem entender... Agarrei na arma da caça, e sem saber o que era... ia parando dentro de água... Ele largou a arma, e eu tive a sorte de ter os joelhos bem apoiados no barco, e a baterem nas laterais o que evitou que fosse catapultado para dentro de água... Aliás se estivesse em pé, tinha certamente ido parar dentro de água, pois a violência do impulso que senti foi tanta... Que tive que fazer tanta, mas tanta força... Enquanto gritava: " Palma o que é isto??? Palma, o que está aqui???... E os meus braços eram levados a rodopiar todo o barco, vezes sem conta, como se fosse um touro mecânico  dos que dão coices, eu andei ali minutos perdido, sem saber o que fazer, com o Palma a assistir dentro de água, e a dada altura eu sem perceber, lembro-me que á fazia de drag., lololol, lembro-me que recolhia e deixava ir a fim de tentar cansar seja lá o que fosse...
 E lá dava linha, perdão, dava cabo, e puxava... e o Palma finalmente sobe ao barco e juntos dominamos o animal... Sempre a lutar, que peixe lutados pessoal, que animal tão forte, e com os dois a segurar levámos vários coices e arrancadas, até que senti o animal, cerca de 20 minutos depois a acalmar e pedi ao Palma que tentasse segurar a fim de eu agarrar na câmara um bocado e tentar filmar aquilo... E ele com muito esforço consegue puxar este exemplar lindíssimo, com 25,900 kg. para dentro do barco...



A esta altura muitos estão a pensar, mas capturam animal desses e ficaram tristes? Mas o que pode ter corrido mal? Bem, não correu mal, ou melhor, para nós correu, como vão perceber mais a frente. A Natureza é impressionante, e existem dádivas que por vezes ficam para sempre, esta é uma que os dois, assistimos, mas que preferíamos não o ter presenciado...

Já dentro do barco, foi uma guerra, foi o espaço que ocupava, mais os coices que dava, não nos deixavam sossegar e o sangue era tanto, que eu por mais que limpasse, parecia que ficava cada minuto que passava mais sujo...

O Palma olhou para mim, e disse " está tão gordo",  grande animal... e depois diz-me: "será que está grávida?"... E eu inocentemente, respondi que era tão grande, é natural que fosse corpulento e gordo...

E ele, apalpou este enorme exemplar, e passou a frente essa ideia...

Embora fosse supostamente o último mergulho pois o vento já era algum, com aquele entusiasmo, ele quis fazer mais um mergulho e fui pô-lo ainda mais a Norte...

E desliguei... Sentei-me no banco, tirei uma sandes e um bongo, e comecei a dar ao dente... e de repente tive uma sensação estranha, como se um vulto passasse por mim... mas segui na minha, sossegado a aproveitar aquele sossego e a descontrair...

E de repente passa... qualquer coisa, por mim, e eu já achava estar maluquinho... Epa e a sandes estava tão boa, que tornei a não ligar, até que calho a olhar para a esquerda e sinto novamente uma sensação de algo a passar por mim... e lentamente olho para o chão do barco... E paralisei... Fiquei minutos... e acreditem que foi mesmo assim, fiquei minutos a olhar para baixo como que se tivesse sido picado por algo... Jamais na minha vida, pensei ver algo assim, jamais pensar assistir ao que estava a assistir ... E tentei gritar ao Palma, que não me ouvia, e continuava a mergulhar... Um misto de dor, e alegria percorreu-me todos os sentidos, cada pêlo do meu corpo, eu estava a assistir a uma mãe a dar à luz dentro do barco...





E como podem imaginar, por mais que não tivéssemos culpa, por mais que jamais pudéssemos adivinhar uma coisa daquelas, senti-me mal, senti-me muito mal, e conhecendo o Palma, sabia que ele também se iria sentir mal. Durante o ano, nós apanhamos muito peixe, e muitos estão ovados, é normal, faz parte, mas não assim...
Aquilo foi um momento horrível, para um pescador, mas ao mesmo tempo lindo para um ser humano de assistir. Eu tinha um peixe, de 25 kg, dentro do barco a dar a luz...

Para que muitos entendam a diferença, a Raia, é um peixe, que fecunda internamente, e que é lá dentro do seu útero, que os bebés se reproduzem, e quando nascem são tal como as pessoas, já formados, e de tamanho considerável. Talvez por isso me tenha chocado tanto, talvez por isso, tenha durante minutos, sofrido, e deixado o Palma estar sossegado a mergulhar, para lhe tirar o sofrimento de ver aquilo...

Eu fui assistindo aos filhotes da raia nasceram, pessoal, lindos, formados... que cena, que coisa tão espantosa... E dei por mim e olhar para este exemplar e fechava os olhos e abanava a cabeça... Após os largos, e foram mesmo largos minutos de transe em que estive, como se fosse uma bola em que estivesse metido, percebi que tinha que fazer alguma coisa, e tentei ser frio, e raciocinar. Eu não podia salvar a mãe... Não dava, ela ia morrer, ela estava a minutos do fim... Mas podia tentar fazer algo pelos filhos... Podia sei lá, tentar ajudá-la a dar à luz, e soltar os bebés... E foi aí que agarrei no barco e fui até junto do Palma e pedi-lhe que saísse da água, enquanto lhe explicava o que se estava a passar... Ele ficou incrédulo, e saltou para bordo, e juntos, levantámos a raia, e ele foi-lhe fazendo massagens na barriga, tentava puxar algo mais... Algum ainda que estivesse lá dentro...

Já com o Palma a a ajudar ainda saíram mais dois filhos e ambos ficámos entregues a este momento, em que estávamos a ser enfermeiros, parteiros, a tentar salvar os filhotes... Por mais que tenha assistido a algo que muitos não vão assistir em toda a vida, a realidade é que neste contexto, e mesmo sabendo que porra, não tivemos maldade nenhuma, nem por um segundo, preferia que isto não tivesse acontecido, preferia que não tivesse passado ali naquela zona, naquele momento...

Vivi, e percebi, o que era ver a vida a continuar... Mas não vim feliz... A pesca para nós terminou naquele momento... Tudo o que vamos fazer a pesca é espairecer, divertir, e custou-nos muito tudo o que se passou...
A vida continua, talvez tenha continuado para aqueles filhotes, talvez... Sei lá, mas a sensação asseguro que é dolorosa.

Durante todo o caminho viemos calados, e já ao chegar eu só pensava se aquela dádiva, tinha acontecido por acaso devido ao tiro que ela levou, ou se miraculosamente aquela mãe ao sentir que iria morrer, deu início ao processo de dar à luz de forma a tentar salvar os seus filhos. Se foi isso, posso assegurar que tudo fizemos para lhe salvar os filhos e que o Palma chegou a meter as mãos pelo útero da raia, a fim de garantir que tinham todos nascido...

Seja como for, dádiva, ou acaso, a realidade é muitas vezes dura, dura demais para quem tem consciência, e para quem tenta sempre fazer as coisas o melhor possível.

Se no meio desta dolorosa experiência conseguir tirar alguma coisa boa, tiro o momento em que soltei os filhotes que foi lindo, que os vi nadarem ( pelo menos 6 dos 9 nadaram vigorosamente assim que os meti na água), que os vi darem seguimento à vida, à vida deles, e espero que pelo menos um, consiga honrar o tamanho que a mãe atingiu e faça valer aquele momento mágico em que ela os deixou terem uma oportunidade de viverem, mesmo que sem ela...
E tive ali parcos momentos de alegria no meio do mau astral e sorri como um puto ao ver os bebés a seguirem o seu caminho...

E desculpem mas estou todo arrepiado a contar isto, sei o que senti,. Não consigo transcrever melhor o que se passou... nem o que sentimos e ainda agora sinto...

Mas uma história de vida, e de morte, no fim foi brindada com um momento mágico, e é por isso que esta história representa uma história de vida, que vou lembrar toda a vida.

Fica o vídeo que nos deu algum alento...

 A vida a continuar...

Um abraço,


Filipepc, e Ricardo Palma

8 comentários:

Joaquim Carlos Araújo disse...

Honestamente, não sei o que comentar...
Um abraço :)

Anónimo disse...

Muito linda a vossa história espectacular a vossa atitude....Os meus parabens

Anónimo disse...

É realmente espantoso o que a natureza nos consegue oferecer ao ponto de nos sentirmos imensamente pequeninos. Se a mim me tocou, imagino a emoção que passaram. Devem sentir-se "escolhidos" por assistir a algo tão belo. Gostava de louvar a vossa atitude, uma lição para todos.
Obrigado por isso
João Carlos Silva

Bruno Mendes (Lostsoul) disse...

Viva Filipe desde algum tempo que venho seguindo os teus post embora nem sempre comente, partilhamos a mesma forma de ver e sentir a pesca e posso te dizer que já tive algumas experiências mas nenhuma se chega a essa.
Uma experiência única e soberba sem duvida alguma, espectáculo ver os teus afilhados :P a irem em busca da vida que lhes era oferecida.
Por essa atitude já mereces ter mais uns encontros desses e se algum dia ouvires alguém a chamar o teu nome e não vires ninguém , olha para agua :D

um abraço e continuação de boas pescarias sem estes percalços

Pedro Franco disse...

Bem essa historia tinha mesmo de ser contada Filipe, melhor ainda, ficou registada, assim nunca mais a vão esquecer, são coisas raras que acontecem,um pouco agridoce é verdade, mas na qual não tiveram total culpa, ficou bem patente a forma de estarem na pesca como na vida e fizeram os possíveis para que a vida continue, bonita atitude e grande relato.
Um abraço e boas fainas.

Manuel Oliveira disse...

Estes momentos ficarão na vossa memória, mas têm as imagens para mais tarde recordar!
A Natureza tem destas coisas, mas pelo menos fizeram o mais correto!
Agora vamos lá ver quando é que se encontram com essas duas crias novamente... LOL

Abraço

Os Pescas disse...


Parabéns pelo relato Filipe, ficou muito bom..Um misto de tristeza e de alegria, pois felizmente a família continuou apesar de tudo.

Um grande abraço amigo

Luís Malabar

Cristóvão Veríssimo disse...

É a primeira vez que comento o vosso excelente blog. Apesar deste momento agridoce, vocês tiveram a melhor atitude possivel e nada mais se pode pedir ou apontar.

Muitos Parabens aos dois.
Um abraço e continuem com toda essa vossa força e atitude!